ADORAÇÃO,
AS ORIGENS DE TANTAS DISTORÇÕES?
 

(*) Wilson Franklim




            Nesse pequeno artigo pretendo identificar nas diversas correntes filosóficas, aquelas, cujas ideologias que tem influenciado negativamente à adoração cristã. Neste contexto, muitos crentes, estão iludidos em seus cultos, por desconhecerem as verdadeiras origens de suas práticas.

            Tal tema se justifica pelo menos por dois motivos: 1º. O "fogo estranho" que os dois israelitas trouxeram perante o Senhor (Lv 10), consistia naquilo que era contrário aos mandamentos divinos quanto à adoração. 2º. No Novo Testamento, Paulo repreendeu os cristãos de Corinto porque eles não se ajuntavam "para melhor, e sim para pior" (1 Co 11.17). Repreensões como estas mostrando a ira de Deus quanto a uma adoração distorcida são multiplicadas por toda a Bíblia. Razão pela qual deveríamos nos manter em permanente estado de alerta quanto a nossa adoração. Mencionarei apenas a influência de quatro correntes.



I. Influência do Existencialismo
 

            O Existencialismo como filosofia é abrangente e complexo, mas pode-se afirmar que sua essência baseia-se na experimentação, em avaliar as coisas pela experiência acima da razão.[1] Observe que nessa filosofia a razão é serva da experiência, portanto a inteligência, de uma certa maneira, fica em segundo plano.

            Embora Heidegger e Schleiermacher sejam indicados como precursores do existencialismo na teologia, foi através do pentecostalismo que a filosofia existencialista alcançou seu auge no meio evangélico, em especial na sua infrutífera tentativa de reproduzir a experiência de pentecostes.[2]

            A influencia existencialista no meio cristão se faz presente através da demasiada ênfase aos sentimentos e emoções na adoração. Note que em muitos “cultos” a palavra de ordem é: “você precisa sentir algo...”; reações como: “Ah! o culto foi fraco porque eu não senti nada”...

            O fato problemático é que essa influência existencialista no culto traz imensos prejuízos porque põe a centralidade da adoração no adorador. O adorador sem se aperceber passa a ocupar o lugar central do culto, uma vez que ele precisa sentir, experienciar, e até mesmo materializar sua adoração para que possa continuar “crendo”. Nesta perspectiva, a liturgia atual é fortemente acusada (com razão) de ser um meio para se atingir emoções.[3]

            Em outras palavras, está aqui a explicação porque a maioria das orações e cânticos, em algumas igrejas, são meios de auto-reconciliação, de auto-ajuda e auto-aceitação. O resultado final é a sensação de se ir para casa "descarregado" e se sentindo bem, contudo, infelizmente, sem se ter verdadeiramente adorado o Eterno. A segunda influência negativa sobre a adoração vem da



II. Influência do Humanismo
 

            O humanismo enxerga as questões da vida sempre numa perspectiva antropocêntrica, isto é: aquela em que homem ocupa o centro do universo. Boice corretamente afirmou que a nossa geração é centralizada no homem e infelizmente "a igreja, traiçoeiramente, tem se tornado egocêntrica."[4] Tornando-se uma igreja em “si mesmada”. No meio batista, tal fato poder ser constatado no enfraquecimento progressivo de nossas convenções e órgãos denominacionais. Em suma, as igrejas estão se individualizando, cada uma numa direção. O trágico é que como Batistas estamos perdendo dia após dia a nossa identidade e o espírito de cooperação (denominacional) que sempre nos uniu...

            A via pela qual o humanismo entra em nossas vidas é a delirante busca por entretenimento. Nesses tempos marcados pela tecnologia, a distração eletrônica, e os mais diversos meios de entretenimento tornaram-se a ordem do dia.[5] Apenas para ilustrar: o que se faz na hora do almoço: se pega o prato e corre-se para televisão...

            Como filhos desta nossa geração, exigimos, às vezes até inconscientemente, que cada momento de nossa vida, inclusive o nosso culto, venha satisfazer nossas necessidades de entretenimento. Neste contexto, o culto é transformado em um "programa" e o mais lamentável, neste caso, é que o desejo de se obter felicidade é muito maior do que o de se obter santidade. Se por um lado muitos estão sedentos por alegria, por outro, o comprometimento com Deus a sua Palavra tornou-se secundário. A tragédia desta cosmovisão é que as pessoas passam a julgar o culto como agradável, não com base na mensagem bíblica, mas no nível de satisfação pessoal alcançado.

            Neste contexto, a pregação torna-se uma homilética do consenso, na qual a boa mensagem não é a que confronta os pecados do povo, mas a que os fazem sentirem-se melhores. Contudo, o grande pecado da adoração humanista é o fato de querer usar a Deus, para satisfazer os interesses pessoais, antes de querer atribuir-lhe a devida glória.[6]

            Outro elemento de erro na adoração é a presença deísta. Vejamos




III. A Influencia da Filosofia Deísta
 

            De uma maneira simplista, pode-se identificar o deísmo como a filosofia do "criador remoto" que não interfere na criação de forma imediata (sem mediação), mas que a governa através de leis pré-estabelecidas.[7] Essa filosofia tem se revelado na história cristã de diferentes formas: gnosticismo,[8] teologia do processo,[9]... Nos últimos dias, porém, ela tem ressurgido no cristianismo de duas maneiras. A primeira e a mais divulgada popularmente é a presunção de que, uma vez tendo "tomado posse das promessas divinas”, pode-se "reivindicar" os direitos junto a Deus, o autor das promessas.

            Seus advogados afirmam que, uma vez cumpridos as leis espirituais (os requisitos), Deus passa a estar à mercê da pessoa para atendê-la em todas suas reivindicações. Assim, se acredita na ilusão de que as palavras têm o poder de mover a vontade de Deus, e o que "declaramos”, ou "profetizamos" sobre nós ou outros, certamente acontecerá. Portanto, idéias como: “eu declaro”, “eu determino”, “eu profetizo”, “eu tomo posse da bênção”, não tem suas origens na Bíblia, mas sim na filosofia deísta.

            O segundo elemento de erro da filosofia deísta (presente no meio batista), vem através de alguns seminários teológicos, onde alguns dos mestres acreditam que Deus não se comunica com os salvos (nem mesmo através da Bíblia). Para estes pensadores o cristianismo é a apreensão humana da divindade. Ensinam que o cristianismo está “em pé de igualdade” com as demais religiões pagãs. Como conseqüência dessa idéia, p. ex., defendem que é impossível conhecer a vontade de Deus. Mas, se por um lado, essas pessoas crêem desta maneira, por outro, a Bíblia afirma categoricamente que podemos e devemos conhecer a perfeita vontade de Deus (Cl 4.12; Hb 13,21; I Pe 4.2). Outro elemento de erro vem da



IV. A Influência do Pragmatismo 
 

            Estamos vivendo uma época em que o mundo passou a avaliar tudo apenas pelo resultado. É filosofia do pragmatismo. O pragmatismo é muito semelhante ao utilitarismo. É a crença de que os resultados, e/ou a utilidade, estabelece o padrão para aquilo que é bom. Para um “pragmatista” se uma técnica, ou mesmo um método produz o resultado desejado, a utilização de tal recurso é válida. Nessa visão, se algo funciona ou dá resultados é porque é bom ou correto.

            No que diz respeito à adoração, como em tantas outras áreas, a aplicação direta deste princípio pode ser desastrosa, pois em função de se olhar apenas para o resultado, muitas vezes se fecha os olhos para os meios utilizados, ainda que sejam meios imorais.

            Trazendo o pragmatismo para a adoração o juiz supremo passa a ser o pastor ou um grupo de pessoas e não o Espírito Santo através das Escrituras. Além do mais, ainda que um estilo "funcione" em um determinado grupo, a decisão com base nos resultados sem a aprovação bíblica é nada mais que uma conformação ao presente século (Rm 12.2).


Conclusão
 

            Devemos constantemente efetuar uma auto-avaliação em nossos cultos, verificando se unicamente Deus, o Eterno, realmente ocupa o lugar central da adoração.


            O problema em si não são as filosofias humanas, mas o seu maligno uso para substituir as Escrituras Sagradas, naquilo que lhe$ convêm. Como crentes, em especial Batistas, não podemos ficar repetindo práticas “litúrgicas” dos outros sem a devida reflexão bíblica. Repetir sem refletir é coisa de papagaio...


            Quanto mais estudo, quanto mais reflito sobre o atual quadro de apostasia em muitas igrejas, mais me convenço de que o verdadeiro cristianismo só pode ser vivenciado unicamente através da Palavra de Deus a Bíblia. Ah! Que saudade do tempo em que éramos chamados de Bíblias, porque a Palavra de Deus era a nossa única regra de conduta e fé...



(*)O Autor é Pastor Assistente da PIB Vila da Penha, Doutorando em Teologia. Wf6@ig.com.br



[1] E. D. Cook, "Existencialism," em New Dictionary of Theology (Downers Grove: Intervarsity Press, 1988), p.243

[2] David L. Smith, A Handbook of Contemporary Theology (Wheaton: BridgePoint, 1992), p.117-132.

[3] John Leach, "Scripture and Spirit in Worship," Evangel 16, 1998. p.13.

[4] J. M. Boice, "Whatever Happened to God?" em Modern Reformation, 1996. p.13.

[5] John H. Armstrong, "How Should We Then Worship?," Reformation and Revival 2, 1993. p.9-10.

[6] Mark Earey, "Worship – What Do We Think We Are Doing," em Evangel 16 (Primavera 1998), p.11.
 

[7] S. N. Williams, "Deism," em New Dictionary of Theology, p.190.
 

[8] Ronald H. Nash, Christianity and the Hellenistic World (Grand Rapids: Zondervan, 1984), p.203-61.
 

[9] David L. Smith, A Handbook of Contemporary Theology (Wheaton: BridgePoint, 1992), p.117-132.